Por sorte - minha, inclusive, pois morei naquela casa - ninguém mais morreu, só ela.
Era uma boa casa, no geral.
Não machucava ninguém, não esfriava e nem esquentava demasiadamente.
Também nunca desabara em ninguém.
Era fácil de ser encontrada - as encomendas e as pessoas sempre chegavam; e difícil de ser confundida - não chegavam cartas nem visitas por engano.
O encanamento era honesto e desencanado, não tinha grilo com nada.
A rede elétrica também não deixava por menos: trazia energia na velocidade da luz! Mas também tinha sensatez, nunca deixou queimar nenhum aparelho. Que saudades daquela rede elétrica...
A pintura - que maravilha! Chega reluzia!
Os cômodos eram em número suficiente e bem dispostos, de modo que não era cansativo nem incômodo se deslocar de um para outro.
O teto era justo, mais do que qualquer juiz!
As paredes eram atenciosas: quantas conversas ouviram...
Sempre com muita atenção e sem interromper quem falava. Como era bom falar para aquelas paredes!
As portas - nunca vi mais bem educadas. Abriam e fechavam conforme necessário, com uma elegância de dar inveja em qualquer modelo. Não me lembro de nenhum problema de emperramento ou rangereza, nem de baques nem de inhenques.
E o que falar das janelas? Jamais conheci janelas mais generosas! Grandes e de vidro, eram bem permeáveis à luz e deslizavam suavemente para controlar o fluxo de ar.
Aquela era uma casa magnífica, mesmo...
Só tinha um - um único defeitinhozinho: o alicerce. Ou melhor, o terreno onde foi construído.
O chão... debaixo dela... o que tinha...
Há muitas especulações: uns dizem que era um charco, ou um brejo, ou um pântano, ou sei lá o quê; outros dizem que era mesmo areia movediça. Outros dizem que era um portal dimensional; e ainda há os que afirmam de pés juntos que a casa fora construída na garganta da Terra.
Enfim, teorias são muitas mas ninguém sabe ao certo a verdade e permanece o mistério.
Eu não sei, só sei que eu morei numa casa que afundou.
Dedicado a Arte Prado.
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