sábado, 9 de fevereiro de 2013

Subir (Adultos, crianças e escadas)

- Criança bêbada, desça já daí, essa escada é para adultos subirem, apenas.
A criança, que não estava bêbada, mas estava viva, sabia ouvir mas não podia entender. Continuou subindo.
O homem chegou mais perto e falou mais alto:
- Criança bêbada, desça já daí, essa escada é para adultos subirem, apenas. Você irá cair e morrer!
A criança, que não estava bêbada, mas estava viva, sabia ouvir mas não podia obedecer.
O homem insistiu, desta vez aos berros:
- Criança bêbada, desça já daí, essa escada é para adultos subirem, apenas. Você irá cair e morrer! Entendeu? Você irá cair e morrer! Desça já daí! Obedeça!

Sem resposta.

O homem, então, fez cumprir sua ordem: derrubou a escada com um empurrão.
- Obedeça!
A escada - a enorme escada - obedeceu, balançou, perdeu o equilíbrio e começou a se inclinar, como se estivesse com sono e quisesse dormir um pouco, deitada, estirada no chão.
A escada caiu.
- Rá! - exclamou o homem, sentindo algo parecido com o que se sente quando se mata uma mosca insolente e insuportavelmente ágil, ou quando se derruba uma criança teimosa de uma escada muito alta.

Silêncio. Nenhum 'aaaaahhh!' nem 'ai!' nem 'ui!'

Percorreu todo o comprimento da escada, estirada no chão. Nenhuma criança.
- Como...?
O homem, então, olhou para cima, como se quisesse ver se iria chover. Talvez houvessem nuvens carregadas. Seria bom se chovesse, mas só quando já estivesse em casa, sob seu teto protetor.
Não viu nuvem alguma. Viu outra coisa.
- Cooomo?!
O homem abriu a boca como se abre a boca quando se vê uma deusa, ou uma mulher tão linda quanto uma deusa, despir-se no meio da lua sem qualquer pudor, ou quando se vê uma criança no céu, subindo uma escada invisível, feita de sonho ou de fé.


Ilustração por Anderson Lima


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